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22 de abril de 2015

ABELHAS PODEM TORNAR-SE “VICIADAS” EM PESTICIDAS, DA MESMA FORMA QUE OS SERES HUMANOS FICAM VICIADOS EM CIGARROS, SUGERE UMA NOVA PESQUISA.


Os zangões e abelhas parecem preferir néctar com produtos químicos como o neonicotinóides por exempolo. Este pesticida geralmente é usado para proteger as culturas de insetos.
Cientistas da Universidade de Newcastle e Trinity College Dublin relatam uma série de experiências em que as abelhas ao provar o necta com pesticidas, sempre voltam ativamente para tais amostras e despresam as amostras que não contem o produto.
Os estudiosos acreditam que ao provar o pesticida a reação desses insetos é prazerosa como o produto ativasse  de forma extraordinaria os centros de recompensa em seus minúsculos cérebros.
As amostra de açúcar com pesticidas fizeram com que as abelhas voltassem de forma repetitiva. Os cientistas fizeram uma comparação aos fumantes que não conseguem ficar sem cigarro e buscam uma atras do outro.
Os resultados, publicados na revista Nature ontem à noite, vem como funcionários da UE estão já se questionando se o neonicotinóides deve ser banido permanentemente como pesticida.
Os conservadores argumentam que os produtos químicos são parcialmente responsáveis pelo declínio das abelhas, “o que temos visto uma redução enorme da população de abelhas nos últimos anos”.
Pesquisas anteriores sugerem que “neonics” (inseticida quimicamente semelhante a nicotina) afeta a forma como as abelhas voam, prejudicando assim, sua capacidade de encontrar comida. E, alguns cientistas acreditam que os produtos químicos também têm em grande impacto sobre as abelhas selvagens e os zangões.
Três tipos de neonicotinóides estão atualmente sob proibição temporária e parcial na Europa - mas está proibição expira no final do ano.
Os agricultores argumentam que, sem os pesticidas, haverá um grande declínio no rendimento de suas culturas, porque sem eles são não tem como proteger a safra contra as pragas principalmente, no repolho.
O autor do estudo Professor Geraldine Wright, da Universidade de Newcastle, disse: “As abelhas não podem provar neonicotinóides e, portanto, não evitar o uso desses pesticidas é colocá-las em risco de intoxicação. “Pior ainda, agora temos evidências de que as abelhas preferem o alimento contaminado com pesticidas”. “E, o Neonicotinóides age no cérebro da abelhas da mesma forma que a nicotina no cérebro humano”.
“O fato de que as abelhas mostram uma preferência por alimentos contendo neonicotinóides é preocupante, já que como a nicotina, os neonicotinóides podem agir como uma droga para tornar os alimentos que contêm estas substâncias mais gratificante”.
Se abelhas campeiras preferem coletar néctar contendo neonicotinóides, isso poderia ter um impacto negativo sobre colônias inteiras.
Um segundo estudo, também publicado na Nature ontem à noite, sugeriu que os neonicotinóides tem efeitos nocivos sobre as populações de abelhas em ambientes agrícolas, e não se configura apenas em laboratório.
Essa pesquisa pelo Dr. Maj Rundlof da Universidade de Lund, na Suécia, descobriu que as áreas em que foram utilizados os produtos químicos em menor densidade as abelhas selvagem e as solitárias tiveram maior crescimento da colônia.
Sandra Bell, do grupo Amigos ambientais da Terra, que fez campanha contra neonicotinóides, disse: “Há evidência científica que os inseticidas neonicotinóides prejudicam nossas abelhas, estes produtos químicos perigosos não devem ter lugar em nossas fazendas e jardins. As abelhas são essenciais para nós - é preciso que sejam tomadas medidas para reduzir todas as ameaças que elas enfrentam”.
O professor David Goulson, da Universidade de Sussex, acrescentou: “Neste momento já podemos argumentar que o uso agrícola dos neonicotinóides prejudicam as abelhas selvagens”.
Mas o professor Lin Field, chefe de química biológica e proteção das culturas no instituto agrícola Rothamsted Research em Harpenden, entendeu que os estudos não são suficiente para colocar um fim ao debate do uso dos neonicotinóides. “ Nós simplesmente precisamos de mais dados antes que possamos realmente dizer quais são os riscos. Nós também temos que considerar a razão pela qual usamos estes compostos: como podemos ter recursos para o controle de insetos-praga? “É comprovado que os rendimentos seriam reduzidos? São os inseticidas alternativos mais seguros para as abelhas? Estas são perguntas que um debate de dois anos sobre ‘neonics’ é incapaz de responder”.
Nick von Westenholz, da Associação de Proteção de Cultivos disse que a pesquisa era simplesmente parte de “uma campanha em curso para desacreditar pesticidas neonicotinóides”. Ele disse: “É uma pena que o debate em torno do uso dessas tecnologias importantes parece estar cada vez mais politizada, com ativistas anti-pesticidas consistentemente a promover sua agenda sob os auspícios de pesquisa independente.
Enquanto isso, o único efeito da restrição de neonicotinóides na Europa até agora tem sido um fluxo constante de relatórios de agricultores que as suas culturas estão sofrendo graves prejuízos.
 

Fonte: dailymail
 

6 de dezembro de 2014

EM LIVRO, ROSANE CONTA SOBRE VIDA COM COLLOR: DO IMPEACHMENT A RITUAL MACABRO COM FETOS HUMANOS

Cortejada pelo então prefeito de Maceió Fernando Collor de Mello, a menina que ainda usava uniforme escolar, aos 15 anos, e vivia sob ordens severas do pai não imaginava que seria a futura esposa do 32º presidente da República do Brasil. Envaidecida e animada com os elogios, ela levou adiante o flerte, consumado anos mais tarde, após um telefonema surpresa. O roteiro que poderia ser apenas de uma garota apaixonada esbarrou no destino atribulado de Rosane. Ela enfrentou, no centro do poder, crises de depressão, medo do suicídio do marido e “humilhações públicas”, segundo diz no livro lançado na quinta-feira, em Maceió. “Tudo o que vi e vivi” (R$ 39,90, editora LeYa) é a versão de Rosane Malta (agora com o nome de divorciada) sobre a sua relação com o ex-presidente apeado do poder.
— É uma história dolorosa e triste. Mas uma história bonita que poderia terminar da melhor forma possível. Eu aprendi desde criança a falar a verdade. Se não pudesse, não falava nada. Então, tudo o que digo no livro é verdade — afirma ela ao GLOBO.
Mesmo vivenciando a conturbada rotina de primeira-dama, com muitas brigas conjugais, Rosane subiu a rampa do Palácio do Planalto após o impeachment, apertou a mão de Collor, e disse: “Levante a cabeça. Não abaixe, não. Seja forte”. Collor é, segundo ela, o maior amor e a maior decepção de sua vida. Em 288 páginas, Rosane relata intrigas familiares, os rituais macabros que eram realizados na Casa da Dinda, os esquemas do ex-tesoureiro de campanha de Collor, além da morte de PC Farias e do destino do dinheiro do esquema de corrupção.
Durante a Presidência da República, ela conta que Collor usava a Casa da Dinda para rituais que pudessem fortalecê-lo politicamente. O relato mais forte sobre as sessões realizadas pela Mãe Cecília, de confiança do ex-marido, envolveu fetos humanos.
“Cecília me contou que, certa vez, fez um trabalho para Fernando envolvendo fetos humanos. Ela pegou filhas de santo grávidas, fez com que abortassem e sacrificou os fetos para dar às entidades. Uma coisa terrível, da qual ela obviamente se arrepende. Quando eu soube disso, chorei copiosamente”.
Um dos primeiros “trabalhos” dos quais Rosane teve notícia ocorreu quando Collor ficou enfurecido com a decisão de Silvio Santos de se candidatar à Presidência em 1989. E ainda mais com o apoio de José Sarney, seu inimigo político. O dono do SBT havia dito a Collor que não concorreria ao cargo, mas descumpriu o acordo. O candidato do PRN, então, encomendou um “trabalho”. Pouco depois, a candidatura de Silvio foi impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Perguntada se tem medo da repercussão e de possíveis processos judiciais por conta das revelações do livro, Rosane responde de forma tranquila:
— Estamos muito bem documentados. E não temos preocupação em relação isso. Tudo o que eu falei eu vi e vivi, como diz o título do livro. É realmente isso.

COLLOR E A CUNHADA
“O grande problema de Fernando era com Pedro. E o meu, com Thereza, a mulher dele”. Rosane diz que o irmão caçula do ex-marido tinha ódio do ex-presidente. Segundo ela, Pedro sustentava que Fernando cantava Thereza.
“Acredito na tese de que os dois tiveram algo antes do meu casamento e Thereza continuou apaixonada. Eu também não duvido que tenha sido por Thereza, por essa obsessão que ela tinha pelo cunhado, que Pedro resolveu destruir o próprio irmão”, diz ela.
Pedro Collor denunciou à revista “Veja”, em 1992, que PC Farias era testa de ferro do então presidente, e que o jornal Tribuna de Alagoas, que PC queria lançar em Maceió, na verdade pertenceria a seu irmão.
No período mais agitado da República desde a redemocratização, ela diz que não tinha dúvidas de que Collor era inocente. “Eu era muito nova, pouco experiente e acreditava no meu marido. Eu achava normal que as pessoas ajudassem Fernando espontaneamente, como fazia PC Farias”. Depois, no entanto, mudou de opinião e relatou que “algumas dúvidas foram surgindo”.
Rosane descreve o deslumbramento da jovem que desfrutou o poder: a dedicação ao figurino e as palavras elogiosas que trocou com a princesa Diana, além da amizade com Cláudia Raia e outras pessoas famosas. Conta que foi elogiada por Fidel Castro:
“Esse presidente do Brasil é muito esperto. Arrumou uma esposa novinha e linda” teria dito o ditador cubano a Collor. Segundo Rosane, mesmo após o impeachment, Fidel continuou a enviar charutos da ilha caribenha ao ex-presidente.

AMIGA DE ROGER ABDELMASSIH
Em busca por tratamento para a gravidez, Rosane, que abortou naturalmente filhos de Collor, procurou Roger Abdelmassih, hoje condenado a 181 anos, 11 meses e 12 dias de reclusão por abusar sexualmente de pacientes. Ele era amigo do casal.
“O doutor Roger era nosso amigo. Frequentávamos a casa dele, e ele, a nossa. Houve até um Natal em que assistimos a uma missa em sua casa antes de ir para a festa na residência de Patsy Scarpa (falecida em 2012,aos 82 anos), mãe do Chiquinho Scarpa, onde comemorei a data por três anos. (...) Fiquei muito assustada quando vieram à tona as histórias de mulheres que dizem ter sido abusadas por Roger durante as consultas”.

COLLOR NÃO TEM CARÁTER
Nos últimos oito anos, Rosane briga com Collor no tribunal para que seja reconhecido o direito de ser compensada pelo fato de ter deixado de lado a sua própria vida profissional para acompanhá-lo. Recentemente conseguiu que ele fosse condenado, mas o processo ainda não terminou.
— Muitas coisas que aconteciam, como abandonar a carreira, não concordava, com certeza. Mas não ia largá-lo. A mesma dignidade que eu tive com ele, ele não teve comigo. Ele não teve caráter — diz ela, que acrescenta:
— Eu amenizei muitas coisas que estão no livro, não passei ódio. Passei, sim, decepção. Eu não guardo ódio. Guardo decepção. Eu lutei para que a Justiça me desse os meus direitos.
Procurada pelo GLOBO sobre os assuntos descritos no livro, a assessoria de Fernando Collor ainda não retornou.

PRIMEIRA-DAMA EM APUROS
Enquanto o marido era presidente, Rosane estava à frente da Legião Brasileira de Assistência (LBA), um órgão assistencial público. À época, ela foi acusada de envolvimento na compra superfaturada de 1,6 milhão de quilos de leite em pó: cerca de 25% a mais pelo quilo do leite. Além disso uma cunhada sua, que ocupava uma superintendência do órgão, foi acusada de dirigir projetos que nunca saíram do papel.
No livro, ela diz que “sequer precisava assinar a autorização para esses projetos nos Estados. Cada superintendente estadual era indicado por uma liderança política da base aliada do governo”. Sobre o escândalo do leite, diz que “não tinha nada a ver com aquilo, como ficou comprovado depois na Justiça”. Ela relata que Collor ficava preocupado que o escândalo o atingisse.
Rosane também conta que foi acusada pela imprensa de dar uma festa de aniversário para a amiga com dinheiro público. Ela sustenta, no entanto, que apenas convidou-a para um evento de embaixatrizes no dia de seu aniversários.
Além dos fatos noticiados sobre a primeira-dama, Collor preocupava-se com irmão de Rosane, “Joãozinho”, que poderia atingir a imagem do presidente. Após saber que o prefeito Canapi, Mauro Fernandes da Costa, havia falado mal de Rosane, Joãozinho foi atrás dele em um bar, sacou um revólver, e atirou contra o prefeito. “Os Malta não levam desaforos para casa e, quando alguém provoca um parente, toda a família se sente atingida”, escreve Rosane.

PC FARIAS E CONTA SECRETA
No início das investigações contra o governo, abertas em 1992 para investigar o chamado esquema PC Farias, o secretário particular de Collor, Cláudio Vieira, afirmou que os gastos pessoais do presidente vinham de um empréstimo para a campanha de US$ 5 milhões feito no Uruguai. A versão foi desmentida após uma secretária relatar que o empréstimo ocorreu depois das eleições, apenas para encobrir o pagamento das contas da Casa da Dinda.
"Quando eu ouvia de Fernando que os depósitos que recebíamos não eram fruto de negócios escusos, mas simplesmente de doações de empresas que não foram usadas na campanha, eu não tinha por que duvidar. Parecia normal para mim, talvez por inexperiência, ter recursos de campanha, e que usufruir disso não era errado", conta Rosane.
Sobre a conta no exterior dos restos de campanha, no montante de US$ 50 milhões, como admitiu Collor em 2009 à Globonews, Rosane diz que ouviu "algumas conversas de que essa bolada realmente existia". A versão não oficial era a de que seu irmão, Augusto, a movimentava.
Collor teria dito a Rosane, inclusive, que estava tendo dificuldade para acessar uma conta gerida pelo irmão. Ela sugere que era a tal conta do escândalo. "Além do mais, eu conheci o suíço Gerard".
Aos 50 anos, Rosane diz que ainda tem muito a contar. Outras histórias podem ficar para um segundo volume.
— Quem sabe? Vamos como me saio com esse livro. Depois a gente vê.


LEIA ALGUNS TRECHOS DO LIVRO CEDIDOS PELA EDITORA LEYA:

“O grande problema de Fernando era com Pedro. E o meu, com Thereza, a mulher dele. Em seu livro cheio de rancor ‘Passando a Limpo – A Trajetória de um Farsante’, publicado em 1993, sobre a rivalidade entre ele e o irmão, Pedro defende a tese de que Fernando dava em cima da cunhada. Eu não acredito nisso. Acredito na tese de que os dois tiveram algo antes do meu casamento e Thereza continuou apaixonada. Eu também não duvido que tenha sido por Thereza, por essa obsessão que ela tinha pelo cunhado, que Pedro resolveu destruir o próprio irmão”.
“Logo depois de Fernando assumir a presidência, comecei a ser alvo de críticas porque meus gastos aumentaram. Isso é uma bobagem tremenda. É claro que eu estava gastando mais! Afinal, eu passei a ter certas obrigações que não tinha como primeira-dama do Estado ou como esposa de um deputado federal. Uma primeira-dama do país gasta mais do que todas as outras, é óbvio! Até mesmo as roupas do dia a dia têm que ser muito alinhadas. Não se pode, por exemplo, comparecer a uma entrevista com um traje simplesinho. Para cada um dos eventos, é preciso pensar em um figurino diferente. E tem ainda as viagens... Um país diferente requer roupas específicas. E eu sempre gostei de boas marcas”.
“Pela péssima execução daquilo que ficou conhecido como Plano Collor, Zélia, para mim, está associada ao primeiro grande erro de Fernando como presidente. Na minha opinião, ela não estava preparada para o cargo de ministra, apesar de ser uma mulher muito inteligente e de ter ajudado muito na elaboração do programa de governo. Ali eu acredito que o governo perdeu muita credibilidade e tornou-se uma vitrine muito frágil para todas as pedras que foram atiradas depois”.
“Aliado a PC Farias, Fernando começou a criar a Tribuna de Alagoas. Na época, ninguém sabia que se tratava de um jornal do presidente. O que se sabia era que PC e seus irmãos estavam montando um diário que, em teoria, concorreria com o jornal da família Collor. E que, por mais estranho que fosse, Fernando apoiava a iniciativa. Só isso. Mas Fernando estava, sim, envolvido no negócio. Tanto é que discutiu com Pedro diversas vezes por causa disso. Pedro temia que a Tribuna tomasse o mercado e os funcionários da Gazeta, e cobrava do irmão uma postura enérgica, pois sabia que PC era seu braço direito. Fernando se negou a fazer qualquer coisa, o que deixou Pedro furioso.”
“Lembro apenas que, depois de um tempo de governo, Fernando começou a se incomodar um pouco com Itamar. Segundo meu marido, seu vice era uma pessoa demasiadamente sensível, que tem um ego dependente de elogios, de afago. Por qualquer coisinha, Itamar se chateava e, para que isso não acontecesse, alguém precisava sempre elogiá-lo, valorizá-lo. Fernando odiava tal comportamento.”
“Dizem que Fernando ficou devendo meses de aluguel da Casa da Dinda para a mãe, dona Leda, quando era deputado. Não duvido. Ele gastava sem saber se tinha dinheiro para bancar e, depois, tinha que fazer essas maluquices para cobrir a conta.”
“Em 12 de outubro de 1992, um helicóptero que fazia um voo entre São Paulo e Angra dos Reis (RJ) caiu e desapareceu no mar. Dentro dele estavam o deputado Ulysses Guimarães e sua mulher, além de outros passageiros e, claro, o piloto. Apesar de todas as buscas, o seu corpo nunca foi encontrado. Era a primeira manifestação do que ficou conhecido como “a maldição do impeachment”, uma série de mortes estranhas e trágicas de pessoas ligadas a Fernando ou ao seu afastamento da presidência. Além do deputado Ulysses, também Pedro Collor, PC Farias e sua mulher, Elma, supostamente haviam sido atingidos por tal maldição. Todos eles morreram poucos anos depois do impeachment. Todos vítimas de magia negra? Eu não sei quem espalhou esse boato, só sei que ele faz algum sentido.”
“Íamos ao terreiro mais ou menos uma vez por mês, mas, sempre que queria algo, Fernando ligava para a mãe de santo e ela dizia o que precisava ser feito para atingir seus objetivos. Dali até a eleição para a presidência, Fernando não vivia sem as orientações daquela mulher. A Mãe Cecília também passou a frequentar o Palácio, aonde ia para receber as entidades (os espíritos) que falavam com o presidente. Anos depois, em uma entrevista, ela contou que, aos poucos, os santos foram se acostumando com o bom e o melhor. Só queriam champanhe e uísque importado e faziam questão de fumar charuto cubano. Fernando bancava tudo isso, para que os trabalhos espirituais tivessem efeito.”
“O fato é que Fernando foi meu grande amor e também minha grande decepção. Não só por tudo o que ele me fez até hoje, mas por não me deixar viver em paz depois da separação. É claro que só vou conseguir deixá-lo no passado quando essa situação se resolver e eu encontrar um outro amor verdadeiro. Já tive alguns namorados desde a separação, pessoas muito queridas, mas nenhum conseguiu ocupar esse lugar. Mesmo assim, sinto-me bem resolvida no campo do coração.”
“Em 2014, 22 anos depois do impeachment, ele foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, por falta de provas, das acusações restantes referentes aos anos em que esteve na presidência do país (peculato, falsidade ideológica e corrupção). O que mais ele queria da vida? Por que nada disso lhe deu a tranquilidade para conseguir me deixar em paz, dando-me uma oportunidade para que eu também pudesse reconstruir minha vida? Ele não parecia querer me ver livre. Eu, pelo contrário, não vejo a hora de essa novela acabar. Também escrevi uma carta pedindo a ele, por favor, que parasse, refletisse, que eu aceitava a proposta irrisória só para ter um ponto final, mas não adiantou. Então não me sobrou outra opção a não ser seguir tentando, para ter o que é meu de direito.”“Enquanto esse problema não se resolve, eu não quero parar minha vida. E este livro é a prova de que a fila anda. Há anos recebo convites para me candidatar à deputada, vereadora e outros cargos, mas não era a hora, ainda. Outros desafios podem surgir, e estou preparada para enfrentá-los. Já venci tantos problemas... Meu futuro promete!”


MSN.com

15 de junho de 2014

FELICIDADE REALISTA


 
Por: Mário Quintana 
A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.
Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça de que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade...
Lindo e verdadeiro!!!

25 de março de 2014

PÓS-GRADUAÇÕES INTERDISCIPLINARES SÃO AS QUE MAIS CRESCEM

 
Os programas de pós-graduação (PPGs) interdisciplinares são os que mais crescem no País desde 1999, quando a área interdisciplinar foi criada na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão do Ministério da Educação (MEC) que autoriza e avalia esses cursos no País. A área é também a maior na Capes hoje, com 296 programas e 374 cursos - cada programa pode incluir mestrado e/ou doutorado. Apesar do crescimento, até 2012, a maior parte dos cursos interdisciplinares (54%) ainda tinha a nota mínima, 3, segundo o último relatório trienal da Capes. Nenhum alcançou a nota máxima, que é 7.
Segundo o professor dos programas de pós-graduação em Desenvolvimento Rural, que é interdisciplinar, e em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jalcione Almeida, entre os motivos que explicam as baixas notas estão a pouca idade dos cursos e o fato de a prática interdisciplinar ser recente nas universidades. “Esses cursos surgem, em boa medida, em centros universitários fora dos grandes eixos, com uma espécie de agrupamento de intelectuais de diferentes áreas, pois as pequenas universidades não conseguem montar um curso disciplinar com poucos professores”.
Além disso, ele explica, as exigências da Capes para a qualidade dos programas é alta. “Os cursos têm de correr atrás para ter uma equipe docente que dê conta e uma proposta que seja alinhada”.
Já para Marlize Rubin Oliveira, professora do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), o fato de a avaliação e o financiamento fazerem parte do mesmo processo pode influenciar as notas. “É uma novidade desde a década de 1990 que a avaliação e o financiamento façam parte do mesmo processo. Há um volume de dinheiro para ser distribuído conforme as notas”.
Segundo Marlize, os critérios de avaliação ainda são muito pautados por análises disciplinares e isso prejudica a área. “Avaliar cursos interdisciplinares com critérios disciplinares acaba penalizando esses cursos. Isso vem evoluindo, mas o segundo grande passo pelo qual a área passará será cada vez mais ser avaliada por critérios interdisciplinares”.
Para o diretor de avaliação da Capes, Lívio Amaral, a média dos novos cursos e de novas áreas, quando criados, é menor em relação àquelas que existem há muito tempo e estão consolidadas. “Áreas novas, quando foram criadas, não tinham notas altas, 6 e 7, justamente porque elas são dadas com base em uma referência e uma identificação. Em uma área nova, nem o curso nem a comunidade sabem exatamente como distinguir essa identidade e a qualificação dentro dessa identidade. Isso não aconteceu só em Interdisciplinaridade, mas em Biomedicina e Biotecnologia também, por exemplo”, afirma.
História. A área nasceu em 1999, com o nome de Área Multidisciplinar, por demanda de um grupo de programas que estava mal avaliado em suas áreas porque apresentava aspectos multi e interdisciplinares. Depois, foi criada uma comissão para avaliar os programas, considerando a formação diversa dos professores - principalmente aqueles vindos de universidades que tinham corpo docente restrito - e a realidade dos objetos de pesquisa contemporâneos, que exigem a ampliação dos campos de análise. Em 2008, a área passou a se chamar Interdisciplinar.
 
O grupo mais representativo no processo de criação da área foi o dos programas de Meio Ambiente. “O nascimento desses programas foi incentivado principalmente pela (Conferência) Rio-92, pois a discussão ‘sociedade e natureza’ estava muito pungente naquela época”, explica Marlize.
A consolidação desses cursos fez com que nascesse da área interdisciplinar uma outra: a de Ciências Ambientais. Entre 2009 e 2010, 47 cursos migraram das interdisciplinares para as ambientais.
Em 2012, a área interdisciplinar estava dividida em quatro câmaras temáticas: Sociais e Humanidades (30% dos cursos); Engenharia, Tecnologia e Gestão (24,5%); Saúde e Biológicas (23,6%); e Desenvolvimento e Políticas Públicas (21,9%). Essa mesma configuração se mantém até hoje.
Há dois anos, a área passou a ter programas em todos os Estados. O número aumentou, mas a distribuição porcentual por região teve pouca variação. A maior parte dos programas em 2012 estava concentrada no Sudeste, um total de 119. O Estado mais representativo é São Paulo, com 60 programas, seguido do Rio de Janeiro, com 36. A Região Norte, embora seja a que tem menos cursos (24), é a que mais cresce: 84,6% entre o triênio 2007-2009 e 2010-2012.
Crescimento. Para quem está em um programa interdisciplinar, a possibilidade de analisar um mesmo objeto de pesquisa sob a esfera de diferentes áreas do conhecimento é um reflexo da realidade social e também da academia.
 
Fonte: estadao.com.br
Por: Bárbara Ferreria Santos

12 de agosto de 2013

CARTA ESCRITA HÁ 1934 ANOS QUASE 20 SÉCULOS ATRÁS PELO IMPERADOR VESPASIANO A SEU FILHO TITO



22 DE JUNHO DE 79 d.C

“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória.
“Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro.
“Será uma imensa propaganda para ti”. Ele ficará no coração de Roma por “omnia saecula saeculorum”, e sempre que o olharem dirão:
‘Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.
“Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão”.
“Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas”.
“Vel caeco appareat” (Até um cego vê isso).
“Portanto deves construir esse estádio em Roma”.
Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase:
`Ad captandum vulgus, panem et circenses´ (Para seduzir o povo: pão e circo).
“Esperarei por ti ao lado de Júpiter.”

PS.: Vespasiano morreu no dia seguinte à carta. Tito inaugurou o Coliseu com 100 dias de festa. Tanto o pai quanto o filho foram deificados pelo senado romano.

A propósito de Copas e Olimpíadas... Continua válida a pergunta de Vespasiano:
- “Onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio?”
Assim estão sendo construídos monumentais estádios em Cuiabá, Natal e Manaus, mesmo que nem haja ludopédio por esses lugares. Só para se ter uma ideia: em Cuiabá, a Arena Pantanal terá 43.600 lugares. No último campeonato de Mato Grosso a média foi inferior a 1.000 pessoas por partida. Em Recife haverá um novo Estádio, embora todos os grandes clubes locais já tenham o seu. Em Manaus, pior ainda: a Arena terá 47 mil lugares. No último campeonato estadual, juntando os 80 jogos, o público total foi de 37.971.

Vespasiano estava certo – o grande negócio é construir estádios!

NB.: em latim “clunis” é equivalente a “nádegas”.
Prof. Rodrigo Dalla Pria Balejo.

Obs: Recebi por email 

25 de dezembro de 2011

JUDAS-ASVERO



Euclides da Cunha


No sábado de Aleluia os seringueiros do Alto Purus desforram-se de seus dias tristes. É um desafogo. Ante a concepção rudimentar da vida santificam-se-lhes, nesse dia, todas as maldades. Acreditam numa sanção litúrgica aos máximos deslizes.
Nas alturas, o Homem-Deus, sob o encanto da vinda do filho ressurreto e despeado das insídias humanas, sorri, complacentemente, à alegria feroz que arrebenta cá embaixo. E os seringueiros vingam-se, ruidosamente, dos seus dias tristes.
Não tiveram missas solenes, nem procissões luxuosas, nem lava-pés tocantes, nem prédicas comovidas. Toda a semana santa correu-lhes na mesmice torturante daquela existência imóvel, feita de idênticos dias de penúrias, de meios-jejuns permanentes, de tristezas e de pesares, que lhes parecem uma interminável sexta-feira da Paixão, a estirar-se, angustiosamente, indefinida, pelo ano todo afora.
Alguns recordam que nas paragens nativas, durante aquela quadra fúnebre, se retraem todas as atividades – despovoando-se as ruas, paralisando-se os negócios, ermando-se os caminhos – e que as luzes agonizam nos círios bruxuleantes, e as vozes se amortecem nas rezas e nos retiros, caindo em grande silêncio misterioso sobre as cidades, as vilas e os sertões profundos onde as gentes entristecidas se associam à mágoa prodigiosa de Deus. E consideram, absortos, que esses sete dias excepcionais, passageiros em toda a parte e em toda a parte adrede estabelecidos a maior realce de outros dias mais numerosos, de felicidade – lhes são, ali, a existência inteira, monótona, obscura, dolorosíssima e anônima, a girar acabrunhadoramente na via dolorosa inalterável, sem princípio e sem fim, do círculo fechado das “estradas”. Então pelas almas simples entra-lhes, obscurecendo as miragens mais deslumbrantes da fé, a sombra espessa de um conceito singularmente pessimista da vida: certo, o redentor universal não os redimiu; esqueceu-os para sempre, ou não os viu talvez, tão relegados se acham à borda do rio solitário, que no próprio volver das suas águas é o primeiro a fugir, eternamente, àqueles tristes e desfreqüentados rincões.
Mas não se rebelam, ou blasfemam. O seringueiro rude, ao revés do italiano artista, não abusa da bondade de seu deus desmandando-se em convícios. É mais forte; é mais digno. Resignou-se à desdita.
Não murmura. Não reza. As preces ansiosas sobem por vezes ao céu, levando disfarçadamente o travo de um ressentimento contra a divindade; e ele não se queixa. Tem a noção prática, tangível, sem raciocínios, sem diluições metafísicas, maciça e inexorável – um grande peso a esmagar-lhe inteiramente a vida – da fatalidade; e submete-se a ela sem subterfugir na cobardia de um pedido, com os joelhos dobrados. Seria um esforço inútil. Domina-lhe o critério rudimentar uma convicção talvez demasiado objetiva, mais irredutível, a entrar-lhe a todo o instante pelos olhos adentro, assombrando-o: é um excomungado pela própria distância que o afasta dos homens; e os grandes olhos de Deus não podem descer até àqueles brejais, manchando-se. Não lhe vale a pena penitenciar-se, o que é um meio cauteloso de rebelar-se, reclamando uma promoção na escala indefinida da bem-aventurança. Há concorrentes mais felizes, mais bem protegidos, mais numerosos, e o que se lhe figura mais eficaz, mais vistos, nas capelas, nas igrejas, nas catedrais e nas cidades ricas onde se estadeia o fausto do sofrimento uniformizado de preto, ou fugindo na irradiação das lágrimas, e galhardeando tristezas...
Ali – é seguir, impassível e mudo, estoicamente, no grande isolamento da sua desventura.
Além disto, só lhe é lícito punir-se da ambição maldita que o conduziu àqueles lugares para entregá-lo, maniatado e escravo, aos traficantes impunes que o iludem – e este pecado é o seu próprio castigo, transmudando-lhe a vida numa interminável penitência. O que lhe resta a fazer é desvendá-la e arrancá-la da penumbra das matas, mostrando-a, nuamente, na sua forma apavorante, à humanidade longínqua...
Ora, para isso, a Igreja dá-lhe um emissário sinistro: Judas; e um único dia feliz: o sábado prefixo aos mais santos atentados, às balbúrdias confessáveis, à turbulência mística dos eleitos e à divinização da vingança.
Mas o mostrengo de palha, trivialíssimo, de todos os lugares e de todos os tempos, não lhe basta à missão complexa e grave. Vem batido demais pelos séculos em fora, tão pisoado, tão decaído e tão apedrejado que se tornou vulgar na sua infinita miséria, monopolizando o ódio universal e apequenando-se, mais e mais, diante de tantos que o malquerem.
Faz-se-lhe mister, ao menos, acentuar-lhe as linhas mais vivas e cruéis; e mascarar-lhe no rosto de pano, a laivos de carvão, uma tortura tão trágica, e em tanta maneira próxima de realidade, que o eterno condenado pareça ressuscitar, ao mesmo tempo, que a sua divina vítima, de modo a desafiar uma repulsa mais espontânea e um mais compreensível revide, satisfazendo à saciedade as almas ressentidas dos crentes, com a imagem tanto possível perfeita da sua miséria e das suas agonias terríveis.
E o seringueiro abalança-se a esse prodígio de estatuária, auxiliado pelos filhos pequeninos, que deliram, ruidosos, em risadas, a correrem por toda a banda, em busca das palhas esparsas e da ferragem repulsiva de velhas roupas imprestáveis, encantados com a tarefa funambulesca, que lhes quebra tão de golpe a monotonia tristonha de uma existência invariável e quieta.
O judas faz-se como se fez sempre: um par de calças e uma camisa velha, grosseiramente cosidos, cheios de palhiças e mulambos; braços horizontais, abertos, e pernas em ângulo, sem juntas, sem relevos, sem dobras, aprumando-se, espantadamente, empalado, no centro do terreiro. Por cima uma bola desgraciosa representando a cabeça. É o manequim vulgar, que surge em toda a parte e satisfaz à maioria das gentes. Não basta ao seringueiro. É-lhe apenas o bloco de onde vai tirar a estátua, que é a sua obra-prima, a criação espantosa do seu gênio rude longamente trabalhado de reveses, onde outros talvez distingam traços admiráveis de uma ironia subtilíssima, mas que é para ele apenas a expressão concreta de uma realidade dolorosa.
E principia, às voltas com a figura disforme: salienta-lhe a afeiçoa-lhe o nariz; reprofunda-lhe as órbitas; esbate-lhe a fronte; acentua-lhe os zigomas; e aguça-lhe o queixo, numa massagem cuidadosa e lenta; pinta-lhe as sobrancelhas, e abre-lhe com dois riscos demorados, pacientemente, os olhos, em geral tristes e cheios de um olhar misterioso; desenha-lhe a boca, sombreada de um bigode ralo, de guias decaídas aos cantos. Veste-lhe, depois, umas calças e uma camisa de algodão, ainda servíveis; calça-lhe umas botas velhas, cambadas...
Recua meia dúzia de passos. Contempla-a durante alguns minutos.
Estuda-a.
Em torno a filharada, silenciosa agora, queda-se expectante, assistindo ao desdobrar da concepção, que a maravilha.
Volve ao seu homúnculo: retoca-lhe uma pálpebra; aviva um ríctus expressivo na arqueadura do lábio; sombreia-lhe um pouco mais o rosto, cavando-o; ajeita-lhe melhor a cabeça; arqueia-lhe os braços; repuxa e retifica-lhe as vestes...
Novo recuo, compassado, lento, remirando-o, para apanhar de um lance, numa vista de conjunto, a impressão exata, a síntese de todas aquelas linhas; e renovar a faina com uma pertinácia e uma tortura de artista incontentável. Novos retoques, mais delicados, mais cuidadosos, mais sérios: um tenuíssimo esbatido de sombra, um traço quase imperceptível na boca refegada, uma torção insignificante no pescoço engravatado de trapos...
E o monstro, lento e lento, num transfigurar-se insensível, vai-se tornando em homem. Pelo menos a ilusão é empolgante...
Repentinamente o bronco estatuário tem um gesto mais comovedor do que o parla! ansiosíssimo, de Miguel Ângelo; arranca o seu próprio sombreiro; atira-o à cabeça de Judas; e os filhinhos todos recuam, num grito, vendo retratar-se na figura desengonçada e sinistra do seu próprio pai.
É um doloroso triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem. Vinga-se de si mesmo: pune-se, afinal, da ambição maldita que o levou àquela terra; e desafronta-se da fraqueza moral que lhe parte os ímpetos da rebeldia recalcando-o cada vez mais ao plano inferior da  vida decaída onde a credulidade infantil o jungiu, escravo, à gleba empantanada dos traficantes, que o iludiram.
Isto, porém, não lhe satisfaz. A imagem material da sua desdita não deve permanecer inútil num exíguo terreiro de barraca, afogada na espessura impenetrável, que furta o quadro de suas mágoas, perpetuamente anônimas, aos próprios olhos de Deus. O rio que lhe passa à porta é uma estrada para toda a terra. Que a terra toda contemple o seu infortúnio, o seu exaspero cruciante, a sua desvalia, o seu aniquilamento iníquo, exteriorizados, golpeantemente, e propalados por um estranho e mudo pregoeiro...
Embaixo, adrede construída, desde a véspera, vê-se uma jangada de quatro paus boiantes, rijamente travejados. Aguarda o viajante macabro. Condu-lo, prestes, para lá, arrastando-o em descida, pelo viés dos barrancos avergoados de enxurros.
A breve trecho a figura demoníaca apruma-se, especada, à popa da embarcação ligeira.
Faz-lhe os últimos reparos: arranca-lhe ainda uma vez as vestes; arruma-lhe às costas um saco cheio de ciscalho e pedras; mete-lhe à cintura alguma inútil pistola enferrujada, sem fechos, ou um caxenrenguengue gasto; e fazendo-lhe curiosas recomendações, ou dando-lhe os mais singulares conselhos, impele, ao cabo, a jangada fantástica para o fio da corrente. E Judas feito Asvero vai avançando vagarosamente para o meio do rio. Então os vizinhos mais próximos, que se adensam, curiosos, no alto das barrancas, intervêm ruidosamente, saudando com repetidas descargas de rifles, aquele bota-fora. As balas chofram a superfície líquida, eriçando-a; cravam-se na embarcação, lascando-a; atingem o tripulante espantoso; trespassam-no. Ele vacila um momento no seu pedestal flutuante, fustigado a tiros, indeciso, como a esmar um rumo, durante alguns minutos, até reavivar no sentido geral da correnteza. E a figura stdesgraciosa, trágica, arrepiadoramente burlesca, com os seus gestos desmanchados, de demônio e truão, defasiando maldições e risadas, lá se vai na lúgubre viagem sem destino e sem fim, a descer, a descer sempre, desequilibradamente, aos rodopios, tonteando em todas as voltas, à mercê das correntezas, “de bubuia” sobre as grandes águas.
Não pára mais. À medida que avança, o espantalho errante vai espalhando em roda a desolação e o terror; as aves retransidas de medo, acolhem-se, mudas, ao recesso das frondes; os pesados anfíbios mergulham, cautos, nas profunduras, espavoridos por aquela sombra que
ao cair das tardes e ao subir das manhãs se desata estirando-se, lutuosamente, pela superfície do rio; os homens correm às armas e numa
fúria recortada de espantos, fazendo o “pelo-sinal” e aperrando os gatilhos, alvejam-no desapiedadamente.
Não defronta a mais pobre barraca sem receber uma descarga rolante e um apedrejamento.
As balas esfuziam-lhe em torno; varam-no; as águas, zimbradas pelas pedras encrespam-se em círculos ondeantes; a jangada balança; e, acompanhando-lhe os movimentos, agitam-se-lhe os braços e ele parece agradecer em canhestras mesuras as manifestações rancorosas em que tempesteiam tiros, e gritos, sarcasmos pungentes e esconjuros e sobre tudo maldições que revivem na palavra descansada dos matutos, este eco de um anátema vibrado há vinte séculos:
– Caminha, desgraçado!
Caminha. Não pára. Afasta-se no volver das águas. Livra-se dos perseguidores. Desliza, em silêncio, por um “estirão” retilíneo e longo; contorneia a arquadura suavíssima de uma praia deserta. De súbito, no vencer uma volta, outra habitação; mulheres e crianças, que ele surpreende à beira-rio, a subirem, desabaladamente, pela barranca acima,
desandando em prantos e clamor. E logo depois, do alto, o espingardeamento, as pedradas, os convícios, os remoques.
Dois ou três minutos de alaridos e tumulto, até que o judeu errante se forre ao alcance máximo da trajetória dos rifles, descendo...
E vai descendo, descendo... por fim não segue mais isolado.
Aliam-se-lhe na estrada dolorosa outros sócios de infortúnio; outros aleijões apavorantes sobre as mesmas jangadas diminutas entregues ao acaso das correntes, surgindo de todos os lados, vários no aspeito e nos gestos: ora muito rijos, amarrados aos postes que os sustentam, ora em desengonços, desequilibrando-se aos menores balanços, atrapalhadamente, como ébrios; ou fatídicos, braços alçados, ameaçadores, amaldiçoando; outros humílimos, acurvados num acabrunhamento profundo; e por vezes, mais deploráveis, os que se divisam à ponta de uma corda amarrada no extremo do mastro esguio e recurvo, a balouçarem, enforcados...
Passam todos aos pares, ou em filas, descendo, descendo vagarosamente...
Às vezes o rio alarga-se num imenso círculo; remansa-se; a sua corrente torce-se e vai em giros muito lentos perlongando as margens, traçando a espiral amplíssima de um redemoinho imperceptível e traiçoeiro. Os fantasmas vagabundos penetram nestes amplos recintos de águas mortas, rebalçadas; e estacam por momentos. Ajuntam-se. Rodeiam-se em lentas e silenciosas revistas. Misturam-se. Cruzam então pela primeira vez os olhares imóveis e falsos de seus olhos fingidos; e baralham-se-lhes numa agitação revolta os gestos paralisados e as estátuas rígidas. Há a ilusão de um estupendo tumulto sem ruídos e de um estranho conciliábulo, agitadíssimo, travando-se em segredos, num abafamento de vozes inaudíveis.
Depois, a pouco e pouco, debandam. Afastam-se; dispersam-se. E acompanhando a correnteza, que se retifica na última espira dos remansos – lá se vão, em filas, um a um, vagarosamente, processionalmente, rio abaixo, descendo...


FONTE: Cunha, Euclides da. Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2000. (Coleção Brasil 500 anos)

17 de julho de 2011

O DRAMA DE UMA POBRE INOCENTE DO SÉCULO XVII, NO RECIFE



O texto a seguir transcrito, é do Livro Sétimo, da obra Desaggravos do Brasil e glorias de Pernambuco, escrita pelo padre Domingos do Loreto Couto, em finais de 1757. Conservou a grafia da época para manter a sua originalidade.


V
ivia na illustre villa do Reciffe o Sargento mor Nicolao Coelho, multo abastado de bens, tinha entre outros filhos hua filha de rara formosura e descripção chamada D. Anna. Casou esta senhora com Andre Vieyra de Melo, mas sentido o demônio que estes dous nobres consortes vivessem em amorosa união, e concórdia das vontades para os fazer discordes, usou de uma industria verdadeiramente diabolica. Enfronhou-se no coração de huma vil escrava, que achou proporcionado para o seu intento, e tendo-a sugerido, e disposta para obrar qualquer ezcesso em prejuízo da honra, e vida de sua senhora, disparou na seguinte maldade. Affectando hum grande segredo, disse a May do marido: Que sua nora esquecida das obriggaçoens do seu estado dava furtivas entradas a João Paes Barretto, que com sacrilego desprezo do sacramento, e de tão authorisadas pessoas injuriava o thalamo conjugal, circumstanciando a noticia com mil particulares, que as suas observaçoens havião alcançado e descoberto. Esta quimera, que so na maliciosa imaginação da escrava tinha subsistencia, admetio ligeiramente a sogra, despresando muitos motivos que se offerecião para duvidar da sua verdade, procurando fazer força o seu entendimento por não perder o lanço de satisfazer com seos antigos, e envelhecidos rancores.
Comunicou sem demora tamanho enrredo ao filho, persuadindo-o a vingança. O filho a quem a experiencia tinha dado cabal conhecimento da virtude de sua esposa, despresando a falsa noticia, que os affectos de amante lhe fazião penosa, receando que a aspereza, e genio da May lhe acrescentasse outro mayor pezar, procurou dissuadilla, pedindo-lhe desprezasse aquella quimera, que creara a maldade da escrava, e abortara o seu atrevimento, conformando-se com a certeza de que sua nora não faltava as obrigaçoens de honrada. A May a quem a antipathia de sogra tinha endurecido o coração, e preocupado o entendimento, apurada nas razoens do filho a paciencia, não sabendo dissimular o seu odio com soberba indignação lhe disse: Se lembrasse das obrigaçoens, com que nascera, e advertisse não era aquelle caso para disfarçado, e quando se mostrasse froixo em acodir pela sua honra, e reputação correria por sua conta o desagravo. O Pay a quem logo se deu conta do que a custa do credito tinha alcançado a escrava, menos sofrido na noticia mostrou tão vivo sentimento, que logo deliberou que primeiro matassem a João Paez, e depois a sua nora, insultando o filho de hua paciencia, que nelle supunha indigna de homem, escandalo do mesmo amor, opprobrio da natureza, e da sua posteridade estrago. Algum tempo porfiou o filho em defender a innocencia de sua mulher, mas não se atrevendo, ou não podendo socegar as vingativas iras de seus Pays, veyo a ceder de covarde. Verdugo, e homicida de si mesmo se agenciou a si proprio a ruina consentindo na morte da Esposa. 
Ignorava a innocente matrona a infernal machina que contra a sua honra, e vida estava levantada, e vivia descançada no gremio de hua suave tranquilidade. O marido pelo contrario acezo hua vez no animo o fogo da desconfiança, e ciume, cego com o fumo da paixão, vapor opaco, que escurece do ceo do amor a mais serena parte, sem mais ter olhos para ver o sol da razão, com desabrimento no trato, remoques na conversação a trazia duvidosa, até que com patentes desprezos lhe deo a conhecer a causa do seu odio. Degenerada a desconfiança em fereza vio a aflicta mulher a sua desgraça, e perigo, mas o socego da sua conciencia adquerido na representação da sua vida passada, e a lembrança da fidelidade, e amor com que sempre tratara a seu marido lhe dava hua grandissima confiança para se defender sofrendo, tendo por armas a tranquilidade, e por escudo o silencio. Tanta força como isto tem a conciencia, que se os culpados lhe parece que sempre tem diante dos olhos o verdugo, os innocentes não temem cousa algua.
Mas sabendo que a João Paes Barreto havião dado a morte em hua cilada, que armarão, conheceo que ella brevemente seria victima do mesmo odio. Via-se dezamparada de seos parentes, e so assestida das suas lagrimas, que ao soccorro da sua dor modestamente corrião.
Carregada de opprobios, so se achava soccorrida da sua confuzão, que lhe cobria no rosto os deliquios de alma, com as purpuras da erubescencia.
Já estava o marido armado de hum activo veneno para nelle a obrigar a beber o triste trago da morte, quando animada do amor, e piedade, pondo por intercessor a hum tio do cruel esposo, impetrou desistisse da impia execução de dar-lhe morte estando pejada, cortando no ventre a vida ao filho em fior, condenando-o a hua morte eterna sem fim.
Pela intercessão deste medianeiro conseguio dilatar-se-lhe o prazo de vida, para que o innocente filho, que trazia no ventre, livrasse do lamentavel naufragio, a que sua May estava condemnada. Para conservar algum tempo a vida, viase obrigada a sacrificar affectuosos rendimentos a hum idolo indigno da sua adoração, e a receber com agrado, pelo longo tempo de coatro mezes, que se demorou o parto, insoportaveis affrontas.
Via-se como perola cercada das asperezas de hua dura concha, como coral no meyo de escura noite, innundava o pranto o seu rosto angelico, asylo da modestia, e trono da gentileza; e com sentidas vozes, e ardentes suspiros, publicava não sentir a crueldade do destino, que na primavera dos annos lhe cortava a fior da vida; e que pouco lhe emportara o morrer senão morrera infamada, porque a morte lhe acabaria os dias, e a infamia lhe eternisaria as ignominias.
Chegou finalmente a hora, em que as dores do parto lhe acrecentarão as angustias do coração, mas neste terrivel aperto mostrou que o seu coração, era maior que o seu infortunio. Depois que via ao filho, que pario livre do perigo, a que estava sacrificado nas suas entranhas pedio lhe trouxessem hum habito do Patriarcha S. Francisco, de quem era muito devota e lhe chamassem hum confessor.
Confessou-se com muitas lagrimas, e pedio aos que se achavão prezentes perdão de algum escandalo, que ouvesse cauzado, e amortalhando-se no habito seraphico se dispoz para morrer. Derão lhe hua potagem envenenada, e a recebeo com hua constancia pasmosa, e desconfiando os verdugos da sua effìcacia lhe derão outra de diferente especie e isto a livrou, porque o segundo veneno empregou sua força em dissipar a actividade do primeiro.
Mandarão-lhe, que entregasse os pez, e braços para lhe serem rasgadas as veas e arterias, e sem algua repugnancia os offereceo ao sangrador. Rasgadas com suma crueldade as veas e arterias, não quiz o sangue pullar nestas, nem correr por aquellas, talvez por nao sair a ser testemunha de acão tão deshumana. Repetirão-se incisoens, e venenos, mas sem effeito, ate que obrigada de hua rustica mão inclinou como fior a tenra garganta, e esperou o golpe de hum garrote, que lhe deu a sogra. E ainda que está constante matrona debaixo do pezo de tantos tormentos, gemia, lograva ao mesmo tempo hum espiritual contentamento, com o qual senboreou de sorte os sentidos, que os teve quietos, e alegres debaixo do jugo da divina vontade ate o ultimo instante, em que se despedio do corpo a sua alma.
Nesta durissima violencia, e em nenhum dos tormentos, que lhe resultarão della, conhecerão os verdugos domesticos, que sempre lhe fizerão guarda, inquietaçoens, ou mudanças no animo, antes muita conformidade com o beneplacito divino, a quem offerecia todas as angustias, e penas com grande mansidão, e brandura. Aqui se conbeceo o elevado do seu Espirito, propriamente olimpo sublime, a cuja eminencia não chegão as nevoas, que se derivão dos charcos. Mas assim o permitiria o Altissimo para que está preciosa pedra fosse pulida com os rigorosos instrumentos de tantas crueldades, e tirannias, e parecesse a seos olhos com os resplandores da paciencia mais primorosamente agradavel.
Depois que no meyo de inevitaveis crueldades acabou a vida aquella formosura igualmente perfeita, que infelice, foy mandado seu corpo a enterrar sem pompa na Igreja do Convento de S. Francisco de Ipojuca. Os Religiosos derão a sepultura, e fizerão por caridade as exequias daquella belleza defunta, que a humanidade se fazia objecto de lastima, aos olhos espectaculo horroroso. He fama constante, que passados dez annos abrindo-se a sua sepultura se achara seo corpo fragante, e incorrupto. Quereria Deos com o privilegio da incorrupção mostrar a inteireza da sua castidade.
Fez este cazo sobre inhumano, escandaloso, a publicidade com que foi comettido. Todos os que uzão de venenos para instrumentos da morte se mostrão vergonhosos, e acautellados para livrarem da suspeita. Desta traça se valeo Pison depois de ter dado veneno a Germanico.
Ludovico Sforza conhecendo que seu sobrinho brevemente morreria da peçonha, que lhe havia dado, não se quiz achar em Millão, mas passou para Placencia. Quando Parifatides, may de Xerxez, Rey da Persia, quiz matar com veneno a nora, com hua faca untada de veneno so por hum lado cortou na meza hua ave. A parte envenenada deu a nora, e reservou para si a parte intacta; a moça inda que receosa das siladas da sogra vendo que comia a parte que lhe tocava da ave, não reparou em comer o seu quinhão, do qual morreu.
Com estas cautellas, e com pejo se valem do veneno, como de destro, e occulto inimigo; mas os criminosos de que tratamos fazendo alarde da vingança, não cuidarão em encobrir o seu delieto. Parecerá a alguem, que assim ficou a innocencia atropelada, e a iniquidade triunfante, porque a Justiça adormecida, ou corrupta não obrou o que devia, com descredito dos Ministros, e escandalo dos povos. Emmudece o Pay por affigido, os parentes se calão por confuzos, e a Justiça deixa as partes sem satisfação. Assim soccedeo, por ser em tempo das sublevaçoens, que causou o turbulento governo de Sebastião de Castro Caldas, e por isso passou este desatino envolto na confusão de outras desordens, sem ser punido pela Justiça humana, mas não lhe faltou o da Justiça divina.
Bernardo Vieyra, e seu filho Andre Vieyra forão prezos para Lisboa por outras culpas, que lhe arguirão, e ambos acabarão com mortes repentinas a vida. A sogra, que nesta tragédia fez o primeiro papel da crueldade, permitio Deos que na sua alma, e conclencia se lhe formasse o seu carcere, e o seu suplicio. Ainda que aos olhos do mundo andasse solta, e livre trazia comsigo o carcere, em que estava preza invisivelmente trateada de ancias, que a inquietavão, de remorsos que a picavão, e de temores, que a afligião, e a assustavão.
Ninguem a perseguia, ella era a perseguidora de si mesma. Ella se perseguia, e se prendia, ella se prendia, e atormentava; finalmente a sua conciencia foy o carcere, e o patibulo, que a levou corno desesperada a morrer no mato entre as feras, como fera.