16 de dezembro de 2013

ENCONTRADOS VESTÍGIOS DE VIDA DA ERA DO GELO EM PLENO SERTÃO ALAGOANO


Além de terra, minerais e água, o solo do município de São José da Tapera esconde história. Fósseis de Preguiça Gigante, Mastodonte, Tatu-Gigante, Toxodon e Paleolhama foram descobertos recentemente nas escavações das obras trecho 4 do Canal Adutor do Sertão.  Vestígios de vida da Era do Gelo em pleno Sertão alagoano.
No dia 6 de dezembro os últimos fósseis foram retirados da escavação pelo paleontólogo, professor universitário e diretor técnico de Paleontologia do Museu de História Natural da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Jorge Luiz Lopes.
“Foi um achado incrível. Temos dentes, ossos, e tudo foi devidamente preservado e catalogado. Nesta última viagem, foram 12 caixas só para trazer o material para o museu em Maceió”, afirmou.
A obra faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, e compreende a inversão de fluxo, ampliação e melhorias do Sistema Adutor do Alto Sertão de Alagoas, a partir da interligação com o Canal do Sertão, cuja extensão total prevista é de 250 quilômetros. Com o investimento de mais de R$ 89 milhões, a previsão é de que o empreendimento seja concluído em 2015, de acordo com o Ministério da Integração.
De acordo com Lopes, o aumento em obras de grande porte, como o Canal do Sertão e duplicações de rodovias, que envolvem relatórios exigidos pelos órgãos ambientais competentes, além da ampliação na pesquisa e extensão de paleontologia, têm favorecido o crescimento de incidência de fósseis no estado. “Quando um fóssil é encontrado em uma obra, é necessário que o serviço seja paralisado até que se faça uma pesquisa e remoção do do material e depois é liberado”, destacou.
A Secretaria de Estado da Infraestrutura afirmou à reportagem do G1 que as obras não foram paralisadas desde que iniciadas em todos os trechos e que desconhece até o momento, relatórios de achados de fósseis no local.
Graças a esses fatores, o número de municípios que registram incidências de descobertas de fósseis em Alagoas quadruplicou nos últimos oito anos, segundo o paleontólogo. “Nos municípios de Penedo, São Luis do Quitunde, Anadia, Maravilha, Ouro Branco e Poço das Trincheiras sempre havia relatos de achados de fósseis. Hoje passou de seis para 24 municípios com incidências, principalmente fósseis mamíferos, que são o foco dos nossos estudos”, contou.
Nos 24 municípios pesquisados, há mais de 100 sítios paleontológicos, sendo 50 só de fósseis mamíferos já georeferenciados pela equipe do museu da Ufal. “Nessas pesquisas já chegamos a catalogar 14 espécies diferentes de animais mamíferos fossilizados em Alagoas, a exemplo da Preguiça Gigante, do Mastodonte, que eram parentes dos elefantes e os toxodons, parentes do hipopótamo. Dinoussauro, por enquanto não achamos”, destacou o especialista.
Há milhões de anos, as condições climáticas e ambientais da região que hoje é Alagoas favoreceram o processo de fossilização, segundo Jorge Lopes. “Esses organismos viraram fósseis por causa do clima do passado. Eles não se degradaram no clima de hoje, graças às condições do tempo e ambientais de antigamente”.
De acordo com Lopes, o fóssil mais antigos chega a registrar 420 milhões de anos. “Há três meses, um morador encontrou fósseis de vestígios de atividades, como pegadas e vestígios de organismos no Semiárido. Ou seja, são fósseis do período devoniano, da era Paleozóica”.
“Os fósseis do Litoral são de animais que viviam na Bacia Sergipe e Alagoas. Eles são mais antigos que os encontrados no interior. Têm em torno de 120 milhões de anos, pois são da era Paleozóica, do Cretáceo. Na grande Maceió, são encontrados mais peixes e troncos fossilizados”, afirmou Lopes.
O achado dos fósseis é como uma espécie de quebra-cabeça para os pesquisadores e historiadores. De fundamental importância para entender a história da região de Alagoas e do passado do mundo. “São registros do nosso passado. Eles ajudam a contar a história do passado da nossa região e vêm contribuindo para a gente entender o que foi que aconteceu aqui e as mudanças que levaram esses animais à extinção”, destacou o paleontólogo, ao afirmar que a idade dos fósseis encontrados varia entre 10 mil e 100 mil anos.
Esses resultados de estudos e pesquisas são apresentados em congressos, publicações científicas além de revistas especializadas. O número de paleontólogos, ou paleontolistas em Alagoas não condiz com o crescimento de estudos realizados nos últimos oito anos no Estado. Há apenas dois, contando com o professor Jorge Luiz Lopes, em Alagoas. A outra paleontóloga é Márcia Cristina, professora e pesquisadora no curso de Biologia, no campus da Ufal em Arapiraca.
O crescimento do acervo e coleções de fósseis em Alagoas é tão grande, que segundo o professor, a estrutura do museu hoje não comporta tal aumento. “Estamos localizados na Rua Aristeu de Andrade, no bairro do Farol, mas queremos sair, porque chegamos no limite de ocupação e pode prejudicar a conservação dos fósseis”, diz o professor.
A reitoria do curso pediu de volta a apropriação do prédio do ICBS, que hoje é ocupado pelo Instituto Médico Legal em Maceió, e a Secretaria de Defesa do Estado garantiu que até março de 2014, quando o novo prédio do IML estará pronto, eles desocuparão o local”, afirma Lopes.
“Quando achar fósseis ou esqueletos do tipo, é só entrar em contato com o museu e a equipe vai até o local. É a melhor forma de manter, conservar e preservar o material e a história. Tudo aquilo que está abaixo de 50 cm, ou seja, no subsolo, é da nação, não pertence a ninguém. Fósseis são patrimônios da nação e o tráfico deles é crime inafiançável. Tentamos sempre convencer que o lugar ideal desse material é no museu e com pesquisadores”, alerta o paleontólogo Jorge Luiz Lopes.
 
Do G1 AL
Por: Natália Souza
 

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